Vinícius de Moraes

Tinha eu uns doze ou treze anos quando descobri a teoria dos sonetos e Vinícius de Moraes, ainda um tanto cheio de inocência, ainda um tanto embatucado com aquilo que poderia ser “infinito enquanto dure”. Só voltei a encontrar o poetinha anos depois, na época do vestibular, quando descobri em sala de aula que “não é maior o coração que a alma”.

Digamos que a partir dessa época, Vinícius se transformou em fonte de inspiração, numa espécie de parceiro. Ganhamos intimidade. Tornei-me um leitor dedicado de seus sonetos, confesso que cheio de segundas intenções.

A adolescência é mesmo a fase do primeiro amor eterno e de tanto abrir e fechar o volume da Antologia poética de Vinícius de Moraes, a capa já se desfazia. Guardei muitos versos na cabeça e no coração e ao longo dos anos foram ganhando mais profundidade do que aquela que eu podia encontrar naqueles tenros anos.

Os anos se passaram e com eles vieram amores e paixões arrebatadoras. Aprendi o que o poeta queria dizer quando afirmava: “Para se viver um grande amor é preciso ter peito, peito de remador”.

Pois é, poeta, diria que além da coragem e da resiliência do tal remador, também usei do total desvario em determinados momentos. Aprendi mais. Em “Receita de mulher”, encontrei pontos em que concordávamos (e que também me faziam achar graça).

Por exemplo, “a boca fresca (nunca úmida) – uma observação de gênio. E também: “é preciso que as extremidades sejam magras, que uns ossos despontem, sobretudo, a rótula ao cruzar as pernas”. Querido poeta, tem toda razão.

Aquele joelho desenhado realmente coisa de louco. Também foi ele que me ensinou a reparar no pescoço e colo das mulheres: “gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras; uma mulher sem saboneteiras é um rio sem ponte”. Sacada de mestre.

E vivi momentos de paixão que mereceram um “me arrebata e me beija, e me balbucia versos, votos de amor e nomes feios” e momentos de afastamento, curtos ou longos, em que tudo que me vinha à mente era “amo-te a fim de um calmo amor prestante e te amo além, presente da saudade”.

E durante um passeio à livraria, volto a folhear Vinícius. Depois de tantos amores passados, retorno ao começo de tudo e concluo que não existe nada tão perfeito ou inspirador do que “De tudo ao amor serei atento, quero vivê-lo em cada vão momento”, do Soneto da Fidelidade, que se fecha com aquilo que hoje identifico como a ironia de um coração partido: “eu possa dizer do amor (que tive) que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure…”

Talvez seja essa a diferença entre o final de um amor e o final de um encontro de dois corações que simplesmente não conseguiram se encaixar.