Afinal, Recife é ou não é o “Vale do Silício” Brasileiro?

Será o Recife o Vale do Silício do Brasil? Li recentemente uma matéria na Revista Exame em que ela era assim referida. li também uma outra que questionava a analogia.

Fiquei estimulado a expressar minha opinião, sob o ponto de vista de um cara de 21 anos desse tal “Vale do Silício do Brasil” que decidiu viver por um período no Vale “original” e que voltou há poucos dias.

Sim. Existe uma atmosfera assemelhada na Região Metropolitana do Recife que não parece ser encontrado com a mesma intensidade em nenhum outro lugar do Brasil. A semelhança com aquele pedaço da Califórnia, torna-se mais intensa ao pensarmos na região entre o Recife Antigo e o Sítio Histórico de Olinda, até porque, além da dinâmica, a geografia e a mistura que o processo de formação histórico propiciou, faz sentido.

Para contextualizar, o Vale do Silício fica na região da Baía de São Francisco que em resumo é um conglomerado de cidades que compõe um ambiente único de inovação no mundo, liderada por tecnologia e criatividade. No lado oeste da Baía destacam-se  duas cidades-eixos: São Francisco e San Rosé. Elas estão interligadas  por uma eficiente rede de transporte e é neste caminho que criou-se o Vale do Silício e sua atmosfera, após décadas de maturação.

São Francisco é conhecida atualmente pela formação dos modelos de negócios do futuro e efervescência nas áreas da Economia Criativa. Isso vem de um longo processo e já transborda para Oakland, cidade no outro lado da baía, onde atualmente diz-se- referência que no Brasil se atribui a Olinda-  encontrar-se a maior quantidade de artistas “por metro quadrado” no Estados Unidos.

Na outra ponta, mais ao sul, está San Rosé – cidade de economia tradicional, mas que tem como “vizinhança” boa parte das empresas de TI do Vale, haja visto que se essas empresas estão nas pequenas cidades ao redor. O que torna San José mais populosa que San Francisco.

Contextualizado e comparando, claro que em menor escala, existem sim semelhanças. San Francisco é muito Sítio Histórico de Olinda. Os dois lugares têm no seu estilo de vida um certo desapego material “descolado”, preservação da qualidade de vida, pessoas receptivas e colaborativas.

As duas podem ser consideradas últimos redutos hippies do mundo, cercadas por arte, boemia e pulsante movimentação cultural. Ambas foram construídas sobre 7 colinas, cheias de história e dinâmicas ocultas; possuem planos de preservação arquitetônica para seus edifícios e agem na escala humana; são verdes e seduzem com paisagens espetaculares.

Recife é mais San Rosé.  Estilo de vida veloz e mais “materialista”. As duas são mais “cinzas” e prezam pela modernidade impulsionadas pela tecnologia. São lugares onde as coisas acontecem, dentro e ao redor delas.

O viés de ambas as abordagens das matérias – o É e o NÃO É – é que focam mais no “onde a bola está” do que “onde a bola vai”, faltando um pouco de compreensão das nuances presentes de suas características histórico-culturais. Sendo assim, aqui vai um palpite “futurista” de alguém que está envolvido  em ações que querem contribuir com a construção do futuro dessas cidades.

Atualmente constata-se existência de  três  pólos econômicos significativos ao redor dos dois centros urbanos das nossas cidades irmãs: Fiat/Goiana, Arena/Cidade da Copa e Suape/Cone, que deverão interligados por algo semelhante a um arco metropolitano, circundando a região.

A questão é, que, no futuro próximo, não sei quantas pessoas se disporão, com um grau de satisfação pessoal aceitável, a sair de casa e ir trabalhar nesses centros econômicos mais distantes. Decisão agravada pelo trânsito crescente. Eu não me sinto atraído, mesmo por um bom dinheiro extra. Prefiro pegar a minha bicicleta e ir de Olinda para trabalhar no Bairro do Recife e, se possível, pela praia Del Chifre.  Isso sim é ter mais qualidade de vida.

Nas estratégias de criação de centros urbanos do futuro, rapidamente terão que se reconectar com a vida do centro das cidades na busca do desenvolvimento, sob o risco da irrelevância econômica, pelo menos é assim que se faz no Vale do Silício e em qualquer outro lugar relevante  do mundo.

Pois é nos centros, tanto no Recife Antigo- ambiente do Porto Digital, numa versão 2.0, como em Olinda – lugar de Economia Criativa espontânea,  que deverão ECOAR novidades nos próximos anos. Daí brotarão soluções para moldar o futuro das cidades. Qual é o mapa desse futuro? Dá uma olhada no Estudo do Cluster Metropolitano de Negócios Criativos

É inegável que há uma certa liberdade poética na comparação do Recife com o Sillicon Valley, mas Recife & Olinda se apresentam com a “vibe” mais propícia à inovação,e economia criativa do Brasil. Pernambuco não só ouve, mas fala para o mundo, num caminho de Upload  crescente, Anota aí.